Notas Pessoa

01.02.2025

Mas não fui só eu quem fingiu.

A complexidade de Pessoa manifesta-se em múltiplos domínios, desde a sua obra literária, à sua vida pessoal.

Como explicar um poeta reservado entrar numa fabricação desvairada de um recém-conhecido, ao ponto de esta ter tido menção em jornais da altura? Influência de uma personalidade interna? Ou é apenas a complexidade comum do ser humano a funcionar?


A história - que ficou conhecida como “O Mistério da Boca do Inferno” - começa em 1930, quando Pessoa conhece Aleister Crowley - ocultista cunhado como "o homem mais malvado do mundo" pelo seu estilo de vida excêntrico e excessivo -, depois de ter enviado uma carta a corrigir aspectos de um mapa astrológico publicado pelo ocultista inglês.

Boca do Inferno : detalhe

Crowley insiste em visitar Pessoa em Lisboa, alegadamente a contragosto deste último. No entanto, Pessoa está no cais para receber Crowley quando este chega, com a amante, a qual terá um papel na ficcionalização que decorre mais tarde.

Os detalhes sobre os encontros entre os dois personagens são obscuros e atabalhoados, misturados entre "ouvi dizer" de terceiros e cartas e escritos encontrados no espólio de Pessoa.

Toma-se como certo que se terão encontrado três vezes, e que terá sido Crowley quem urdiu o plano de forjar o próprio suicídio na Boca do Inferno em Cascais. A Pessoa, ficou o papel de divulgar a história nos jornais portugueses com ajuda de amigos jornalistas, chegando ao ponto de fazer declarações junto da polícia, conferindo assim credibilidade ao "acontecimento".

A trama confunde-se com realidade e fabricação, misturando o desaparecimento da amante de Crowley, o seu reaparecimento, e depois partida do País, com a suposta reação de Crowley no pós ter sido abandonado pela amante. Esta ideia é confirmada por trechos no diário do ocultista, onde escreve "Decidi fingir um suicídio para chatear a Hanni. Combinar os detalhes com Pessoa".

Mas continua a ser impreciso o porquê da fabricação de Crowley, e ainda menos como conseguiu convencer Pessoa a encarreirar na ficção.

Terão os dois combinado os planos sobre o falso desaparecimento a 21 de Setembro, tendo depois Crowley abandonado o País. A 27 de Setembro, estando o ocultista já na Alemanha, saiu no Diário de Notícias uma notícia que dava conta do desaparecimento de Lisboa do “célebre escritor inglês”, “deixando na ‘Boca do Inferno’ uma carta misteriosa e alucinada”. Mais notícias surgiram sobre o assunto, alimentadas por Pessoa e um amigo jornalista.

O mesmo amigo jornalista - Ferreira Gomes - foi quem num "golpe de sorte", encontrou, na tarde de 25 de Setembro na "Boca do Inferno, junto à abertura conhecida pelo nome de ‘Mata Cães’", a carta de suicídio de Aleister Crowley.

Subsequentemente, Fernando Pessoa foi à esquadra da polícia prestar declarações. “Sabendo pelo Diário de Notícias do sucedido, vinha dar algumas explicações”, escreveu Ferreira Gomes num artigo do Notícias Ilustrado, a 10 de Outubro, numa altura onde Pessoa continuava a fazer múltiplos esforços para espalhar a história do alegado desaparecimento do ocultista inglês.

As declarações prestadas por Pessoa não deixam de ter um certo grau de confusão: diz ter visto Crowley pela última vez em Sintra a 23 de setembro, e que voltou a vê-lo “ou ao seu fantasma”, na manhã de 24, a “dobrar a esquina do Café La Gare para a Rua 1.º de Dezembro”. Mais tarde, voltou a vê-lo, “ou o seu fantasma” na Praça Duque da Terceira, quando ia “entrar, com outro indivíduo para a Tabacaria Inglesa. Em nenhum dos casos havia tempo, ou até razão, para lhe falar, nem estranhei, realmente, que viesse a Lisboa um indivíduo que está em Sintra”.

Em Dezembro de 1930, Pessoa insiste na história, numa entrevista do primeiro número do "Girassol". Ali, conta uma versão apontando antes para um assassinato de Crowley. É assim que define aquele artigo, numa carta que manda ao ocultista na Alemanha: “Havia possivelmente uma novidade — a hipótese de você ter sido assassinado. Nela baseei a entrevista, que redigi na totalidade, para evitar a habitual baralhada que os jornalistas e tipógrafos fazem de uns para os outros.”

Foi a possibilidade de assassinato, aquela que foi noticiada pelo diário inglês Oxford Mail, a 15 de Outubro: “Aleister Crowley ‘assassinado’. ‘Revelações espíritas a um médium londrino’”, retirada da "entrevista" de Pessoa no Girassol: “Num quarto pequeno e mal iluminado em Bloomsbury, na noite passada, o sr. A.V. Peters, médium londrino, entrou em transe para se obterem algumas indicações sobre o paradeiro do sr. Aleister Crowley, escritor e mago. (…) O sr. Peters declarou que, durante o transe, lhe tinha sido indicado que o sr. Crowley estava morto, e que ‘tinha sido empurrado dos rochedos abaixo por um agente da Igreja Católica Romana’. ‘Os católicos já anteriormente tinham atentado contra a vida do sr. Crowley’, disse o sr. Peters, ‘e ele estava à espera de ser atacado’”.

No entanto, com o tempo Pessoa parece ter perdido interesse na trama, e as cartas trocadas com Crowley chegam ao fim nos meses seguintes.

A história acabaria por morrer meses mais tarde, quando se torna conhecido que Crowley está noutra parte da Europa.

Continua a ser assim incerto o propósito de Pessoa. Mas há pistas sobre isto.

No espólio de Pessoa, existem escritos inacabados de um policial entitulado "The Mouth of Hell", iniciada a Setembro de 1930, sobre as investigações de um detetive privado inglês para descobrir o que aconteceu ao ocultista nos seus últimos dias em Portugal.

Assim, é provável que o objetivo de Pessoa tenha sido a promoção deste policial. Com efeito, nas costas de uma cópia da carta de suicídio, escreveu: “Esta história deverá render 200 libras, apenas em direitos americanos. Inventar uma história romanceada”.

artigo de jornal com a 'volta' narrativa de Pessoa

publicado por Tomé Valadares